GRANDES SONETOS
Conforme publicado na segunda edição de RIMAS DE LUIS DE CAMÕES em 1598.
Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói e não se sente,
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer,
é um andar solitário entre a gente,
é nunca contentar-se de contente,
é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade,
é servir a quem vence o vencedor,
é ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?
SONETO DE FIDELIDADE
Vinícius de Moraes (1913 - 1980)
Poemas, sonetos e baladas, Edições Gavetas, São Paulo, 1946, pág. 7
De tudo, ao meu amor serei atento
antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
que mesmo em face do maior encanto
dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
e em seu louvor hei de espalhar meu canto
e rir meu riso e derramar meu pranto
ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
quem sabe a morte, angústia de quem vive
quem sabe a solidão, fim de quem ama
eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
mas que seja infinito enquanto dure.
OS CISNES
Júlio Mário Salusse (1872 – 1948)
Fonte - O Mundo Maravilhoso do Soneto, Vasco de Castro Lima, Rio de Janeiro,
Livraria Freitas Bastos S/A, 1987, pg. 815
A vida, manso lago azul, algumas
vezes, algumas vezes mar fremente,
tem sido para nós, constantemente,
um lago azul, sem ondas, sem espumas.
Sobre ele, quando, desfazendo as brumas
matinais, rompe um sol vermelho e quente,
nós dois vagamos, indolentemente,
como dois cisnes de alvacentas plumas.
Um dia, um cisne morrerá, por certo:
quando chegar esse momento incerto,
no lago, onde talvez a água se tisne,
que o cisne vivo, cheio de saudade,
nunca mais cante, nem sozinho nade,
nem nade nunca ao lado de outro cisne!…
IDEALISMO
Thalma Tavares. Nascido em Recife no ano de 1934.
Atualmente o poeta reside em São Simão/SP.
Um Prometeu também já fui um dia
e dos deuses roubei a chama eterna,
o fogo com o qual eu pretendia
iluminar a noite da caverna.
Paguei com minha dor esta ousadia.
Por querer transformar fogo em lanterna
pelos deuses fui preso à penedia
e dado ao corvo e à noite sempiterna.
Eu sonhava meu povo iluminado,
sem a treva que o faz tão desgraçado,
tão carente, tão pobre, tão mortal.
E qual um Prometeu sobre o rochedo,
ao meu algoz eu resisti sem medo,
sem jamais renegar meu ideal.
SONETO XIII
Olavo Bilac. (1865 – 1928) (Poesias, Via Láctea, 1888.)
“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
que, para ouvi-las, muita vez desperto
e abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto
a via-láctea, como um pálio aberto,
cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
tem o que dizem, quando estão contigo?”
E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
capaz de ouvir e de entender estrelas.”
AS POMBAS
Raimundo Correia. (1859 – 1911) (Fonte - Sinfonias - 1883)
Vai-se a primeira pomba despertada...
vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
de pombas vão-se dos pombais, apenas
raia sanguínea e fresca a madrugada...
E à tarde, quando a rígida nortada
sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
ruflando as asas, sacudindo as penas,
voltam todas em bando e em revoada...
Também dos corações onde abotoam,
os sonhos, um por um, céleres voam,
como voam as pombas dos pombais;
no azul da adolescência as asas soltam,
fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
e eles aos corações não voltam mais...
INESQUECÍVEL
Geisa Alves (Imortal da Academia Brasileira de Sonetistas- ABRASSO)
Atualmente a poetisa reside em Resende/RJ.
Mesmo que o tempo, num furor de morte,
congele as flores, petrifique o sonho
e rasgue as tardes com o vento norte,
ainda assim te lembrarei, risonho.
Mesmo que o tempo na amargura aporte
e estile cinzas, num revés tristonho,
abrigarei a memorável sorte,
pois mesmo em dor, a te esquecer me oponho...
Terei nos olhos um jardim de sedas,
em minha boca a calidez da tua,
nas mãos e corpo, relembranças ledas.
E em tardes rútilas, ao sol deposto
com a alma leve, desejosa e nua,
terei, de ti, o inesquecível gosto.
AQUELE MESMO VENTO
Janske Niemann Schenker
Atualmente a poetisa reside em Curitiba/PR
Quando ele vinha – aquele vento amigo –
a me chamar com um sussurro doce,
eu já sabia: vem brincar comigo!
E eu me ia leve, qual se brisa fosse...
Quantos momentos divinais me trouxe
aquele nosso passatempo antigo
até que um dia (qual de nós cansou-se?)
a brincadeira fez-se afago... e sigo...
Pelos lugares antes percorridos
caminho ainda: lábios contraídos,
andar sem rumo, olhar de quem padece...
Hoje ele passa – ainda é o mesmo vento –
e após olhar-me só por um momento
passa por mim... e não me reconhece!
VERDADES E MENTIRAS
Arlindo Tadeu Hagen (Imortal da Academia Brasileira de Sonetistas Clássicos- ABSC)
Atualmente poeta reside em Juíz de Fora/MG.
Há quem pense que versos de poesia
são apenas estórias inventadas
por pessoas de mentes inspiradas,
repletas de ilusão e fantasia.
Há quem pense o contrário, todavia:
que tudo são verdades confessadas,
que as dores e alegrias retratadas
São vivências reais do dia a dia.
Verdades ou mentiras, os meus versos
retratam variados universos
de um coração que pensa e que delira.
Nos versos que eu escrevo eu nunca minto
pois quando escrevo eu falo do que eu sinto
mas o que eu sinto, às vezes, é mentira.
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