LICENÇA POÉTICA

O modernismo no Brasil teve como marco inicial a Semana de Arte de 1922 e os autores desse movimento, contrários à forma de produção artística pré-existente, que tinha por premissa a forma culta e vocabulário acurado das construções poéticas, eram também contrários ao parnasianismo, que primava pela perfeição das produções valorizando as formas clássicas e extremamente rigorosas (Olavo Bilac foi o mais conhecido dos poetas parnasianos brasileiros e uma das suas obras marcantes é o soneto XII, incluído em sua obra Via Láctea, escrito em 1888).  A nova Escola Literária tinha como principais características, entre outras, a liberdade formal, a linguagem coloquial, humor, ironia, experimentalismo e o uso dos VERSOS LIVRES E BRANCOS, abrindo mão da rima e da métrica. Grandes nomes da literatura brasileira aderiram ao movimento, entre eles, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Mario Quintana...  Se o modernismo contribuiu para o surgimento de novos adeptos devido a abrangência temática (principalmente de cunho social e ideológico) e de conteúdos menos rigorosos, por outro lado trouxe o enfraquecimento substancial de produções que não primaram pelo uso da linguagem culta e do vocabulário outrora correto e cuidadoso. Em meados de 1960 e 1978, talvez pela percepção desses acontecimentos, a terceira geração do modernismo volta a ser fortemente influenciada pelo parnasianismo, pelo simbolismo e ao rigor formal das produções, em oposição à liberdade antes defendida, voltando também à valorização do ritmo, da rima e da métrica e, os temas sociais e políticos passam, também, a não serem focados como antes. Se o movimento literário brasileiro hoje conta com uma leva de poetas que primam pela feitura das obras laboriosas e impecáveis quanto ao trato cultural e de rico vocabulário, por outro lado os resquícios de um modernismo “popular” desenfreado e pouco cuidadoso ainda fomentam um grande número de subprodutos sob a chancela da liberdade de expressão e da licença poética, ou seja, liberdade para se fazer o errado parecer certo quando o certo parece ser mais difícil ou inacessível aos preguiçosos e aos incapazes.

 Em tempo, uma suave massagem para os corações daqueles que admiram a boa escrita: 

 

Via Láctea
 SONETO XIII

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via-Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.

Comentários

Postagens mais visitadas